História da música e sua importância no pensamento humano - Capitulo V

Johann Sebastian Bach - Elias Gottlob Haussmann, 1746

Barroco

"A arte é a manifestação sensível do Espírito.” Hegel

Barroco significa "pérola imperfeita" e quase sempre indica um raciocínio estranho, tortuoso, que confunde o falso com o verdadeiro, o claro com o escuro. É a representação do culminar de uma época de intensos conflitos religiosos. É quando veremos o homem se colocando em constantes dualismos psicológicos: paganismo x cristianismo ou espírito x matéria. Foi um movimento que se estendeu entre os anos de 1600 a 1750, ano da morte J. S. Bach. 

Podemos considerar o nascimento do barroco situado na Itália. Desde o renascimento a Itália se tornara o maior polo de atração de artistas e o maior centro irradiador de influência para Europa. Nos dois terços finais do século XVI esteve em vigor uma derivação tardia do renascimento conhecida como maneirismo (ambos explorados no capítulo anterior). Em síntese, o maneirismo era conhecido como arte dos cortesãos, uma arte extravagante e excêntrica que mais tarde se transformaria no próprio barroco. Para entendermos com clareza esse período e como sua música pode ter influenciado a mente humana, será preciso analisarmos alguns fatores que atuaram em conjunto.

A Inspiração de São Mateus - Caravaggio, 1602
A eclosão da reforma protestante, por exemplo, ocorreu em muitos países da Europa e foi um evento que pôs fim à unidade do Cristianismo e ao reinado do Papado romano. Compreender esse evento é de extrema importância pois as mutações do pensamento e da arte desse período derivam, em boa parte, por causa dele. Precisamos perceber, também, a igreja católica reorganizando suas forças e lançando a Contra Reforma numa tentativa de refrear a evasão para o lado Protestante. Nesse ponto façamos uma análise: o surgimento do barroco pode está intimamente ligado à Contra Reforma em que a arte desempenhou um importante papel propagandístico para a igreja. Por isso esse movimento inicialmente estar ligado à Itália, país estritamente católico.

Com a convocação do Concilio de Trento (1545-1563), a teologia passou a assumir o controle impondo restrições as expressividades renascentistas e as excentricidades maneiristas. Tudo deveria ser submetido de antemão ao crivo dos censores. Desde o tema até a forma de tratamento. A saída para muitos foi aceitar o conflito entre a criatividade do artista e as forças externas que ditavam regras obscuras e castradoras. Entretanto, num paradoxo, a arte barroca conseguiu superar muitos limites.

Senhora escrevendo uma carta com a criada - Vermeer, 1670
Outro fato importante do período barroco é o que ocorreu na economia. Uma profunda mudança no sistema do mercado internacional, através do desenvolvimento do sistema colonial das Américas e do Oriente, se servindo da escravidão de base para o seu funcionamento, o sistema bancário se aprimorou e as práticas de comércio se tornaram mais complexas com a importação de produtos coloniais. Isso transforma os hábitos culturais europeus. O sistema mercantil enriqueceu o continente e afetou as relações sociais e políticas originando novas regras de diplomacia e etiqueta, além de financiar um grande florescimento artístico e uma segmentação mais complexa de classes.

As práticas políticas da época davam direitos obtusos aos estados nacionais recém-criados. Representados na forma de monarcas, existia na administração pública uma moral dupla, um pragmatismo em controvérsias que era parcialmente independente da religião. Interessante percebermos que a Itália, politicamente, havia perdido o prestígio na Europa mas, culturalmente, continuava a ser uma potência.

A filosofia da época, o autoconhecimento, desejado desde os tempos de Sócrates, acreditava que a partir dele se conheceria o íntimo de todos os homens; dominar-se-ia a natureza, o ambiente social; possibilitar-se-ia fazer previsões sobre tendências ou comportamentos futuros, individuais e coletivos; aproveitar-se-ia oportunidades ou se evitar-se-ia desgraças. Nesse sentido, o pensamento barroco foi essencialmente pragmático e regulado pela prudência em muitos aspectos.

Vaidade - Philippe de Champaigne, 1671
A religião preservou-se sobre a maioria da população, porém, a atitude de questionamento era a marca nas obras de grandes pensadores da época. Dentre os mais importantes cito Descartes, Pascal e Hobbes, cujas as mesma lançaram bases para novos métodos de pesquisa e um pensar mais expansivos e dialético. A principal questão da época era a proposta do  que eu conheço? ou seja, estava aberta a discussão sobre a natureza da sapiência e suas relações com a fé. Conhecer a razão, a metafísica, a ética, a política, a economia e a ciência natural transformam a atitude do ser social passando essa atitude assumir o papel nas mudanças da vida individual e coletiva.

Mas não foi só de cultura, filosofia e religião que a Europa viveu. A guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a maior guerra deste período, envolveu muitos países Europeus. A conclusão desse confronto, a Paz de Vestfália, culminou na reorganização da geografia política continental fortalecendo o absolutismo. Graças a essa guerra a Europa reconheceu a impossibilidade de reunificar o Cristianismo.
Celebração da Paz - Bartholomeus van der Helst, 1648
Talvez por isso percebemos que tudo no barroco foi excessivo. O absolutismo preponderava. A vida era luxuosa, extravagante e teatral; a religião se dividia e o racionalismo tomava conta das manifestações intelectuais. Poderemos considerar a época da afetação. Enquanto o renascimento buscava qualidades na moderação, economia formal e material, austeridade, equilíbrio e harmonia, o barroco se apresenta com mais dinamismo e contrastes; maior dramaticidade, exuberância e até certo realismo podem ser notados nas obras barrocas. 

Palácio de Versalhes, 1682
Uma personalidade desse período foi o rei Luiz XIV, um exemplo de gestor absolutista. Ele ordenou a construção do opulento Palácio de Versalhes, o mais versátil e majestoso palácio da história ocidental. Luiz XIV fundou a primeira academia de abrangência nacional para várias modalidades de arte e ciência. Com isso, a França passou a nortear as tendências das artes por algum tempo. Em muitos trechos da sua bibliografia lê-se que Luiz XIV se banhava de grandes cerimônias e sempre estava rodeado de músicos e dançarinos, inclusive ele mesmo era um grande bailarino.


Muitas vezes o barroco pode ser compreendido como a manifestação artística que desafiou as regras do Renascimento ou as relançou sobre um prisma mais inteligível. É importante ressaltar, porém, que essas mudanças introduzidas pelo espírito barroco se originaram de um profundo respeito pelas conquistas das gerações anteriores. (Sugiro um bom documentário para estudos mais aprofundados.) BBC: Bach e o Legado Luterano - Dublado

A grande inovação na pintura foi o controle do claro e do escuro o que deu perspectiva e profundidade a obra além de intensidade dramática. Entre o sagrado e o profano, muitos pintores se destacaram. Caravaggio é um dos mentores da luminosidade dirigida.
A Captura de Cristo - Caravaggio, 1602
A escultura barroca é dramática. Os gestos teatrais com expressões fortes e emocionadas são característica que denotam que a intenção era de, provavelmente, inserir o espectador à obra.
Êxtase de Santa Teresa - Bernini, 1625
Assim como na pintura e escultura, a arquitetura vive as volúpias do barroco. O uso de formas curvas para a criação de movimentos, a utilização de colunas retorcidas na busca de contrastes entre a luz e a sombra criam dramaticidade ao ambiente.
Interior da Abadia de Melk - 1738
A literatura moderna se inicia no barroco. Vários escritores surgem em países diferentes, principalmente após a Guerra dos Trinta anos. Religião e os conflitos ideológicos entre o cristianismo e o paganismo; as histórias das colônias e do próprio cotidiano passaram a fazer parte do ideário da literatura.

Uma companhia de Commédia
dell'Arte em um palco ao ar livre -
Karel Dujardins, 1657
No teatro, o virtuosismo linguístico atinge seu auge. Ainda desenhado num modelo que é fruto do classicismo renascentista, a temática quase sempre se concentrava na figura do monarca como centro da obra, mas, podemos verificar que também houvera uma interessante abordagem da psicologia humana em seus contrastantes: virtude e vício; tragédia e comédia. O primeiro grande teatro erguido em Florença no século XVI fez com que surgissem vários outros pelos países europeus.

Para a música, dentre todos os períodos da história, o mais importante e tocante é o barroco. Podemos considerá-lo a grande ruptura e a consolidação do nosso sistema musical. A música barroca representa os afetos e sentimentos humanos sobre muitos prismas. 

Enquanto no renascimento os instrumentos eram pouco valorizados e a música cantada era o mais comum, no barroco, o instrumental passou a ser mais preponderante. Compositores passaram a escrever músicas específicas para grupos variados de instrumentistas. Surge a figura do luthier sofisticando os instrumentos musicais para uma melhor adequação às exigências das composições que, no decorrer desse período, visaram muito o virtuosismo. O instrumento que mais se adequa a esse período devido a sua rápida evolução é o violino.

O Teatro Régio de Turim -
Pietro Domenico Oliviero, 1750
Eclodem as óperas e consequentemente uma maior utilização de orquestras e salas de teatros maiores e mais tratadas acusticamente. A ópera nasceu na Itália com Monteverdi (1567-1643) no início do período barroco, sempre patrocinada pela aristocracia italiana. Mais tarde, em 1637 torna-se entretenimento público com a abertura de teatros em Veneza.

O Barroco foi o período em que se estruturaram as academias de arte e se fundam métodos de ensino rigorosamente normatizados e categorizados no academismo. A criação do sistema acadêmico para a arte significava a formulação de uma teoria em que encarnava os princípios de beleza e verdade. A ênfase no virtuosismo técnico, referenciando os modelos antigos do classicismo, tentava ligar a arte à ética. Na música em especial, vemos a mente expressando uma visão, primeiro, de uma ordem social concebida em fundamentos éticos/morais e, segundo, o músico como um pedagogo, um erudito e um humanista.

As academias, que a partir do fim do século XVII se multiplicaram pela Europa e Américas, foram importantes para a elevação do status profissional dos músicos, afastando-os dos artesãos e aproximando-os dos intelectuais.

A linguagem musical barroca foi de grande importância pois que, os recursos técnicos específicos e padronizados utilizados nas composições podiam induzir emoções específicas no espectador e, ao mesmo tempo, ser isso comuns a todos. Ideias similares já eram encontradas na Grécia Antiga. Os músicos seguiam os pensamentos de Platão. A música deve estabelecer relações exatas entre palavra e som ou melodia e harmonia. Acredito que para eles, uma ideia musical não era somente uma representação de um afeto mas, sua verdadeira materialização. A música barroca tentou criar uma impressão de ilimitado, imensurável, infinito, dinâmico, subjetivo e inapreensível. O quanto isso propicia a mente a elaborar, na sua formação linguística, novas dimensões?

Enquanto a filosofia humanista renascentista mostrava o homem como um animal elevado perante os outros, colocando-o no centro de tudo, o racionalismo predominou no período Barroco. Racionalismo é a corrente central do pensamento liberal. Procura estabelecer caminhos para se alcançar determinados fins. Este se usa de uma ou mais proposições para extrair conclusões, no entanto, ou algo é verdadeiro ou é falso ou, ainda, provável. É o mesmo contraste encontrado nas artes. O racionalista pretendeu entender que tudo existe e tem uma causa e logo, terá um efeito. A partir disso, devemos estudar as variáveis e somente tirar conclusões se se possuir certeza de nada omitir.

Dueto -
Hendrick ter Brugghen, 1628
Por volta do ano de 1600, as obras artísticas constituem verdadeiro marco de transição do pensamento humano. Para a música, essa mudança é nítida pelas novas formas composicionais de instrumentação e afinação. O uso da dissonância como recurso expressivo. A tentativa racional e intencional de expressar o transcendente.

A música, por ser uma linguagem que sensibiliza não só a mente, neste período se mostra resumida porém, vasta e profunda. Demonstra com exatidão o enigma em que o homem convivia: o bem e o mal; o ser ou o não ser. O pensamento, além de ganhar uma horizontalidade, ganha profundidade e, a beleza e a variedade das composições musicais tentam revelar ao homem, o quanto estamos unidos com uma divindade transcendentemente desconhecida.

O período musical barroco nos conta que existem paradigmas do pensamento explorados pela música. O homem conclui enfim, que pensa e existe num mundo dominado pelos horizontes das aspirações programáticas em contraste com profundidade do ser de natureza transcendental e imprevisível. Entrelaçando as duas maiores  questões da mente humana, razão e fé, a música elevou-as conforme se quis ou se pôde ouvir. O resultando é a inegável qualidade intelectual que acendeu o pensamento. Este último pode transformar-se em multifacetado.

Principais compositores

Johann Sebastian Bach

O grande destino histórico de Bach foi oferecer à Humanidade uma versão musical do cristianismo. Muitos o chamam de o quinto evangelista.  

A música de J.S. Bach é a demonstração da vida em plenitude. É o evidente anseio da infinita beleza. Para ele, certamente, a música era a linguagem absoluta do pensamento. Criou e sentiu a música semelhante ao que a mente faz com a religião, na acepção mais exata dessa palavra. O seu poder de criação era tal que poder-se-ia afirmar estar nele o dom divino de ouvir o universo.
 

". . . Com a aproximação da velhice, a vista de Bach começa a falhar.
Visitava Leipzig o Dr. Taylor, cirurgião inglês, especialista em oftalmologia. Aconselha Bach a submeter-se a uma operação que lhe melhoraria a visão. Mas o resultado é negativo, e o pouco que enxergava apaga-se totalmente. Magdalena descreve-nos numa triste página este episódio.
'Oh! Meu Deus, ainda sinto a angústia desse momento! Todavia, quando chegou a hora de lhe revelar o efeito da operação e a sua total cegueira, Sebastian demonstrou extraordinária paciência. Longe de permanecer tão calma como ele, eu chorava ao lado do seu leito. Meu marido pôs a mão na minha cabeça e disse-me: 'Devemos ficar contentes por sofrer um pouco; isso nos aproxima de Nosso Senhor, que tanto sofreu por nós'. Pediu-me depois para ler um livro de Tauler, célebre pregador, o segundo sermão de Epifania, em que havia uma passagem de que se lembrava, e a qual desejava ouvir para consolação dos ouvidos da sua alma, já que não a podia ler para a alegria dos seus olhos. 'Se os olhos da minha cabeça me são arrebatados, é porque Deus, Nosso Senhor e Pai celeste, assim o quis por toda a eternidade, e se eles agora me são tirados, e se me torno cego e surdo, é porque assim quis Nosso Pai e Senhor. Não devo então abrir meus olhos e meus ouvidos e agradecer a Deus, que a Sua santa vontade seja cumprida em mim? Por que hei de ficar triste por isso? Assim, perder a vista, a audição, os amigos, a fortuna e tudo aquilo que Deus nos deu de partilha; tudo deve servir para nos preparar e ajudar na espera da verdadeira paz'. Foi, pois, bruscamente", termina Magdalena, "que tive consciência de que a maior esperança de meu marido era morrer."
Esses meses que antecedem a morte são de agonia para Magdalena, mas em sua abnegação, redobra seu afeto, seu carinho para com o marido. Muitas vezes põe-se ao cravo tocando e cantando para iluminar o mundo das trevas em que o amado marido está mergulhado - trevas do corpo, porque há clarões de alegria nos olhos da alma de Bach, por ver tão próxima a sua libertação da prisão da Terra para o paraíso do céu, a que desde a adolescência sempre aspirou.
Entre o apagar da sua vida e a sua morte, ainda pôde conceber uma obra genial: a Arte da Fuga. Sentando-se ao cravo, vai dedilhando as notas, as teclas que tão bem estavam impressas na sua memória, e toca pela primeira vez a Arte da Fuga, que Magdalena vai passando para o pentagrama.
Bach morre numa terça feira, a 28 de julho de 1750, às oito horas e um quarto da noite."
Trecho extraído do livro BACH sua vida e o cravo bem temperado, de José da Silva Martins.
Várias músicas de Bach

Claudio Monteverdi 

L'Orfeo